intimidades superficiais

devaneios pouco claros, mentiroso, irônicos, falsos, profundos, verdadeiros e rasos

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

devoro nas entranhas

devoro
suculento óvulo
nas entranhas

ato deplorável
para uns
bizarro

mas impeço
outra façanha
nivelada rasteira

pois aborto
saudoso
propagação incurável

mastigar voraz
triturando
ser humano
que ainda sonha
esperançoso
salvar o mundo

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

meio dia

é meio dia
sombras inclinadas
ainda é horário de verão

inúmeros ruídos
tilintar de metais
contra porcelanas caras

ruas vazias
almoço em família

rotina hipócrita
de relações humanas

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

figura

figura
imagem patética
tão simples

traços diagonais
mera impressão
rascunho em folha reciclada
de uma impressora já sem tinta

como um efeito
nocauteador
manchas que inspiram

expiro repúdio

troquem os quadros famosos
pela imagem de um olhar

o olho cego
da auto-crítica

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

trincheira

me jogo na trincheira
de alma inteira

o corpo
delicadamente
dilacerado

sufoco
nos botões pregados ao pescoço
calcanhar
me aleja
nó cego, cega

som de passos
ouvidos ao solo
terra, fartura
entre meus lábios

enquanto tempo me resta
de sentir o calor
do sangue que espaca

suor em minha testa

domingo, 30 de dezembro de 2007

aceno final

aceno
de cinema
em câmera lenta

gesto se afasta
sem pressa

horizonte
sempre longe

visão que escurece
ao poucos
se fecha

um último close
na mão
balançando
como uma bandeira
hasteada
num velório importante

palavra se esvai
pensamentos em zigue-zague
como diria Jeff Buckley
"last goodbye"

fade out completo
hora de levantar
as cenas passadas
fixas na memória

hora de sair do quarto escuro
impessoal

vida nos diverte
pequena sala de cinema
chamada dois mil e sete

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

na praça

concreto
gelado
me abraça

cuida desse ser
isolado
já sem força
de erguer a viola

nesta tarde
se isola
pra compôr outros tons

neste gesto
impreciso
de movimentos estáticos

me enlaço
neste banco
oculto

minha praça escondida
o paraíso perdido

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

catenóide

perfeita forma
acaricio
com ambas as mãos

aquele corpo
dado por deuses

equação complexa
decifro
a cada centímetro

sinta
meus dedos
em tua silhueta

maravilhosa catenóide
tua cintura de modelo